Num dos meus momentos vagos e, enquanto conduzia, assaltou-me um
pensamento que mordeu a minha vontade de explorar a sua dimensão filosófica.
Não teremos todos um pouco de bipolaridade ou multipolaridade?
A avalanche de emoções a que estamos sujeitos, resultante da variedade e
diversidade de acontecimentos que assolam o mundo e seus impactos nas nossas
vidas pessoais, levam-me a acreditar que precisamos de mais do que um polo para
lidar com a realidade. A volatilidade das relações, a crescente falta de
interesse em socializar, a incerteza permanente e a falta de compromisso/entrega,
inundam-nos de emoções pesadas, que exigem competências e ferramentas poderosas,
para reforçar a nossa capacidade de as ultrapassar com distinção.
Sinto que, não posso adotar a mesma personalidade diante da presença de
certos acontecimentos, sobretudo, aqueles que desencadeiam emoções arrasadoras
e incapacitantes.
Sou do tipo de pessoa que não esconde a sua vulnerabilidade e
fragilidade. Assumo-me como uma pessoa falha em construção, mas que quer muito
aprender a lidar com as suas emoções e atribuir-lhes o lugar que elas merecem.
Confesso que, ultimamente, tem virado uma obsessão.
Há desarranjos interiores que obrigam a um transformismo pessoal, para conseguirmos
ser funcionais. Por vezes, temos de abandonar quem somos e escolher quem
precisamos ser, para integrar em determinados contextos.
É difícil conservar a nossa essência num mundo cada vez mais desumano e
infeliz.
Silenciamos o nosso eu primordial para dar lugar a um eu adaptativo e
impessoal.
Os espíritos mais sensíveis como o meu têm dificuldade em colaborar com
estas transições de personalidade fantasiosas, para caber e funcionar melhor.
Por isso, consideramos o isolamento como algo necessário para nos auto regularmos.
Há momentos em que nos sentimos paralisados e sem recursos próprios
para agir adequadamente.
A palavra propósito virou a meca dos europeus.
Vida com propósito é o novo mantra dos países ocidentais.
Somos pressionados a entregar aquilo que não temos e precisamos
trabalhar em nós e, para isso, é preciso tempo.