quinta-feira, 5 de março de 2026

Vagão de Emoções

 Num dos meus momentos vagos e, enquanto conduzia, assaltou-me um pensamento que mordeu a minha vontade de explorar a sua dimensão filosófica.

 Não teremos todos um pouco de bipolaridade ou multipolaridade?

 A avalanche de emoções a que estamos sujeitos, resultante da variedade e diversidade de acontecimentos que assolam o mundo e seus impactos nas nossas vidas pessoais, levam-me a acreditar que precisamos de mais do que um polo para lidar com a realidade. A volatilidade das relações, a crescente falta de interesse em socializar, a incerteza permanente e a falta de compromisso/entrega, inundam-nos de emoções pesadas, que exigem competências e ferramentas poderosas, para reforçar a nossa capacidade de as ultrapassar com distinção.

Sinto que, não posso adotar a mesma personalidade diante da presença de certos acontecimentos, sobretudo, aqueles que desencadeiam emoções arrasadoras e incapacitantes.

Sou do tipo de pessoa que não esconde a sua vulnerabilidade e fragilidade. Assumo-me como uma pessoa falha em construção, mas que quer muito aprender a lidar com as suas emoções e atribuir-lhes o lugar que elas merecem.

Confesso que, ultimamente, tem virado uma obsessão.

Há desarranjos interiores que obrigam a um transformismo pessoal, para conseguirmos ser funcionais. Por vezes, temos de abandonar quem somos e escolher quem precisamos ser, para integrar em determinados contextos.

É difícil conservar a nossa essência num mundo cada vez mais desumano e infeliz.

Silenciamos o nosso eu primordial para dar lugar a um eu adaptativo e impessoal.

Os espíritos mais sensíveis como o meu têm dificuldade em colaborar com estas transições de personalidade fantasiosas, para caber e funcionar melhor. Por isso, consideramos o isolamento como algo necessário para nos auto regularmos.

Há momentos em que nos sentimos paralisados e sem recursos próprios para agir adequadamente.

 A palavra propósito virou a meca dos europeus.  

 Vida com propósito é o novo mantra dos países ocidentais.

 Somos pressionados a entregar aquilo que não temos e precisamos trabalhar em nós e, para isso, é preciso tempo.

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