sexta-feira, 20 de março de 2026

FALO DE BONDADE!

Temos memórias diferentes. As tuas não são as minhas, nem as minhas são as tuas.
Há algumas que gostaria de apagar e há outras que gostaria de repetir. Assim como tu,
com as tuas memórias.
São tempos de cura diferentes.
Geraste essa necessidade em mim de procurar recursos para lidar melhor com as más memórias. Eu te agradeço.
Sugeria que fizesses o mesmo contigo, mas quem sou eu para sugerir.
Não houve tempo para isso.
Provavelmente, não era essa a tua missão na terra.
Estavas ocupado(a) a conquistar Trabalho e Educação para nós.
E o meu crescimento fez-se e faz-se assim. A trabalhar o pensamento crítico, a desconstruir, a duvidar, a questionar, a argumentar, mas também a procurar bondade nas palavras, nos gestos, nos silêncios, na respiração, no olhar, nas ações, em tudo o que não é visível, mas não deixa de ser verdadeiro e gentil. Confesso que, podiam ter sido mais e mais evidentes os sinais. Nos pouparia a todos de muitos incómodos.
Quem sabe num outro tempo verbal, numa outra vida.
Amar é bondade.
Sem julgamento.
Sem cobrança.
Amar é bondade.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Vagão de Emoções

 Num dos meus momentos vagos e, enquanto conduzia, assaltou-me um pensamento que mordeu a minha vontade de explorar a sua dimensão filosófica.

 Não teremos todos um pouco de bipolaridade ou multipolaridade?

 A avalanche de emoções a que estamos sujeitos, resultante da variedade e diversidade de acontecimentos que assolam o mundo e seus impactos nas nossas vidas pessoais, levam-me a acreditar que precisamos de mais do que um polo para lidar com a realidade. A volatilidade das relações, a crescente falta de interesse em socializar, a incerteza permanente e a falta de compromisso/entrega, inundam-nos de emoções pesadas, que exigem competências e ferramentas poderosas, para reforçar a nossa capacidade de as ultrapassar com distinção.

Sinto que, não posso adotar a mesma personalidade diante da presença de certos acontecimentos, sobretudo, aqueles que desencadeiam emoções arrasadoras e incapacitantes.

Sou do tipo de pessoa que não esconde a sua vulnerabilidade e fragilidade. Assumo-me como uma pessoa falha em construção, mas que quer muito aprender a lidar com as suas emoções e atribuir-lhes o lugar que elas merecem.

Confesso que, ultimamente, tem virado uma obsessão.

Há desarranjos interiores que obrigam a um transformismo pessoal, para conseguirmos ser funcionais. Por vezes, temos de abandonar quem somos e escolher quem precisamos ser, para integrar em determinados contextos.

É difícil conservar a nossa essência num mundo cada vez mais desumano e infeliz.

Silenciamos o nosso eu primordial para dar lugar a um eu adaptativo e impessoal.

Os espíritos mais sensíveis como o meu têm dificuldade em colaborar com estas transições de personalidade fantasiosas, para caber e funcionar melhor. Por isso, consideramos o isolamento como algo necessário para nos auto regularmos.

Há momentos em que nos sentimos paralisados e sem recursos próprios para agir adequadamente.

 A palavra propósito virou a meca dos europeus.  

 Vida com propósito é o novo mantra dos países ocidentais.

 Somos pressionados a entregar aquilo que não temos e precisamos trabalhar em nós e, para isso, é preciso tempo.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Tropecei nos 50 e agora?

Aos cinquenta anos temos saudades, até daquilo que ainda não vivemos. 

A consciência do tempo que nos resta, acelera os batimentos cardíacos e intensifica as emoções, que nos colocam neste lugar de lucidez temporal. 

Tudo ganha relevo! 

O passado ganha terreno sobre o presente e o futuro, precipitando a nossa urgência de viver bem. 
É caso para dizer que, aproveitar os anos seguintes e não desperdiçar o doce deixado na ponta dos dedos é uma obrigação com benefícios. 

Atrever-se a ser feliz nunca soou tão necessário como agora, nesta fase, em que tudo é progressivo, a começar pelas lentes dos meus óculos, do dia a dia.

A vida vira um caso cada vez mais sério. 

Continuamos ativos, apesar da imagem refletida no espelho demonstrar o contrário. Flacidez, olheiras, papos, uma cordilheira de linhas e vincos, a denunciar as cargas vividas. 

Rimos com mais vontade. 

Ignoramos o que é relativo e circunstancial. 

Afinamos a inteligência.

As nossas manifestações e intervenções, não pedem licença. Querem romper com anos e anos de inibições e vontades reprimidas. 

Nem a "pousa" (alguém batizou), o castigo das mulheres de meia idade, nos faz perder a identidade e mudar de frequência. 

Queremos deixar tudo feito, tudo dito, tudo escrito, antes que nos cortem o pio. 
Nada ficará por fazer, nem por dizer. 
O essencial é a nossa maior prioridade. O resto são distrações, sem a menor importância. 

Dizem por aí que, a meia idade retira-nos parte da memória mas, em compensação, acrescenta-nos clareza, esvaziando-nos daquilo que já não faz falta. 

Tornamo-nos seletivas e cheias de intenção.

Respiramos fundo e suspiramos de forma involuntária e inconsciente. Autênticas panelas de pressão, fumegando por mais espaço. 

Pois é, são os 50 a chegar.

Como serão os dias subsequentes? 

Não sei mas prometo regressar e documentá-los para memória futura.  

Entretanto, virarei uma acumuladora militante, de singelas relíquias pessoais, cumprindo o ritual de gerações anteriores à minha.

Resumindo, não espero nada mas espero tudo do tempo que ainda me resta.

FALO DE BONDADE!

Temos memórias diferentes. As tuas não são as minhas, nem as minhas são as tuas. Há algumas que gostaria de apagar e há outras que gostaria ...