Aos cinquenta anos temos saudades, até daquilo que ainda não vivemos.
A consciência do tempo que nos resta, acelera os batimentos cardíacos e intensifica as emoções, que nos colocam neste lugar de lucidez temporal.
Tudo ganha relevo!
O passado ganha terreno sobre o presente e o futuro, precipitando a nossa urgência de viver bem.
É caso para dizer que, aproveitar os anos seguintes e não desperdiçar o doce deixado na ponta dos dedos é uma obrigação com benefícios.
Atrever-se a ser feliz nunca soou tão necessário como agora, nesta fase, em que tudo é progressivo, a começar pelas lentes dos meus óculos, do dia a dia.
A vida vira um caso cada vez mais sério.
Continuamos ativos, apesar da imagem refletida no espelho demonstrar o contrário. Flacidez, olheiras, papos, uma cordilheira de linhas e vincos, a denunciar as cargas vividas.
Rimos com mais vontade.
Ignoramos o que é relativo e circunstancial.
Afinamos a inteligência.
As nossas manifestações e intervenções, não pedem licença. Querem romper com anos e anos de inibições e vontades reprimidas.
Nem a "pousa" (alguém batizou), o castigo das mulheres de meia idade, nos faz perder a identidade e mudar de frequência.
Queremos deixar tudo feito, tudo dito, tudo escrito, antes que nos cortem o pio.
Nada ficará por fazer, nem por dizer.
O essencial é a nossa maior prioridade. O resto são distrações, sem a menor importância.
Dizem por aí que, a meia idade retira-nos parte da memória mas, em compensação, acrescenta-nos clareza, esvaziando-nos daquilo que já não faz falta.
Tornamo-nos seletivas e cheias de intenção.
Respiramos fundo e suspiramos de forma involuntária e inconsciente. Autênticas panelas de pressão, fumegando por mais espaço.
Pois é, são os 50 a chegar.
Como serão os dias subsequentes?
Não sei mas prometo regressar e documentá-los para memória futura.
Entretanto, virarei uma acumuladora militante, de singelas relíquias pessoais, cumprindo o ritual de gerações anteriores à minha.
Resumindo, não espero nada mas espero tudo do tempo que ainda me resta.