domingo, 30 de janeiro de 2011

Sonho envenenado


Carlota é um nome clássico que nos remete para o imaginário dos princípes e princesas, duques e duquesas, infantes e infantas, cheios de privilégios a quem devemos prestar reverência. Efectivamente, seus pais quando lhe atribuíram o nome, pensaram nas possbilidades que um nome tão marcante no passado histórico, poderia trazer para o futuro da sua filha. Na verdade, Carlota habituou-se a fomentar essa imagem de alguém com sangue azul, com pose real, diferente dos demais, inatingível, soberana. Teve a felicidade de frequentar bons colégios, elitistas, conhecer o mundo, viver numa mansão com oitocentos anos de história, aprender educação musical, aprender vários idiomas, aprender boas maneiras, comunicar melhor, frequentar ambientes sociais restritos, vestir bem, ter acesso facilitado aos melhores lugares nos espetáculos e demais eventos.
Para uns, uma vida de sonho mas para Carlota, uma Vida aprisionada num mundo cheio de convenções, comportamentos e poses estudadas, cerimónias, reverências, frio e emocionalmente castrador.
Não se sentia nenhuma previligiada por pertencer aquele mundo fabricado, sem lugar à descontração, ao descontrolo emocional, sem arrebatamentos, sem graça. Suas amizades eram sugeridas pelo meio fechado em que vivia, seu futuro estava programado, seus sentimentos eram desconsiderados, sua liberdade estava comprometida, seu valor não carecia de prova pois não havia nada para conquistar nem para provar. Carlota escorregou num descontentamentamento permanente que surpreendeu sua família, que desconhecia completamente seus motivos. Remeteram seu problema para psicólogos, pensando livrar-se do fardo emocional gerado pela sua filha única, designada sucessora de todo o império da Família Bourbon.
Carlota não padecia de nenhum distúrbio mental por querer criar a sua independência, longe daquele sistema de conveniências. Incompreendida, preparou a sua fuga e aventurou-se no desconhecido, sem noção do que iria encontrar e que batalhas iria travar, mas o facto de ter opção fazia-a sentir-se livre e Feliz.   
  

sábado, 29 de janeiro de 2011

Morte Adiada

Cinco de Agosto de 2010 é uma data que jamais cairá no esquecimento dos trinta e três mineiros chilenos. Principalmente, para Luis Urzua ou “lucho” para os amigos. Trigésimo terceiro mineiro a abandonar a mina San José por opção. Líder da missão de resgaste desde o interior da mina. Foram sessenta e nove dias a gerir emoções, controlar o pânico, dosear as rações alimentares, acalmar a ansiedade, dividir o oxigênio mas sem abusar, suportar o calor excessivo, acreditar na salvação, abafar a saudade de casa e da família, partilhar o mesmo espaço, conviver com a insuficiência de recursos, lidar com a proximidade e tantas outras privações. Comandar trinta e dois homens, assustados com a probabilidade de morrerem a quase setecentos metros de profundidade, longe da realidade, longe da família, longe do mundo, na escuridão, retidos naquele inferno subterrâneo, não foi tarefa fácil. “Lucho” foi um homem de coragem, ao assumir o comando, ao transmitir confiança aos seus homens, ao criar formas de resistir aquele desespero, sem hora prevista para acabar.
“Lucho” é um homem de fibra, vítima do regime ditatorial de Pinochet, que dizimou sua família e o colocou na posição, deixada vaga pelo seu pai, de chefe de família, responsável pela susbsistência dos seus irmãos.
O que não mata torna-nos mais fortes e foi a força de Lucho que prolongou a permanência e resistência naquele buraco negro, rico em cobre.
O mais curioso desta história bem real é que minutos antes da derrocada, o camião conduzido por um dos companheiros de Lucho, Franklin Lobos, abrandou a velocidade para observar uma borboleta branca, perdida naquele jazigo mineral. A sua presença veio adiar as suas mortes para mais tarde, interrompendo a passagem para o local, onde se deu o desabamento das rochas que bloquearam a saída da mina. Apesar de não ter aspecto de santuário ou de abrigo de fiéis, foi nesses escassos metros quadrados livres de perigo, que o grupo de mineiros invocou os santos das suas devoções para os devolver aos seus entes queridos.
Felizmente, os santos estavam acordados e ouviram os apelos desesperados dos homens soterrados. Uma capsula chamada fênix 2 veio resgatá-los um a um até à superfície, num percurso penosamente lento e doloroso.
Lucho foi o último a oferecer-se para abandonar a mina. Tinha tempo para sair dali. Sentia-se responsável por aqueles homens com quem criou uma enorme cumplicidade e com os quais estabeleceu uma ligação de irmandade inquebrável.
Finalmente, chegara a sua vez de entrar na capsula e subir até junto dos seus companheiros de cativeiro. Na iminência de entrar na “nave”, não conteve o choro compulsivo que durante esses sessenta e nove dias tentou abafar. Já não estava a comandar. Já não precisava fingir que não estava frágil. Era um vencedor. Um dos orgulhos da nação chilena.
O percurso até ao topo foi recheado de pensamentos vários algo difícil de verbalizar, tal era a emoção de estar perto de abraçar sua mulher e filhos. Há dois anos que prometia à sua companheira retirar-se do vício da mina e compensá-la dos anos de ausência, mas a promessa nunca chegou a sair da prateleira. O seu passado de privações fê-lo lutar por um futuro melhor para sua família, mimando-os com todo o conforto e negando-lhes seus afectos, seus abraços,  sua dedicação, seu amor. Mais do que alimento, àgua, descanso, oxigênio, Lucho carecia das reprimendas da Mulher que o intimava a colaborar mais na educação dos filhos, das cócegas desarmantes dos filhos que lhe retiravam o sossego, do concurso de gargalhadas inventado pelo seu filho mais novo, que alastrou a toda a família, das palavras de confiança da Mulher que tantas vezes o animaram, dos beijos roubados aos filhos, dos compromissos religiosos ao domingo, dos domingos e feriados livres para estar com a família sem se comprometer com mais nada, da tequilla, das ensaimadas, dos burritos, dos paparicos culinários da sua Consuelo. Era tão feliz e não sabia. Tinha agora oportunidade de retribuir essa felicidade e a agonia que experimentara na mina, ensinara-o a não desperdiçar momentos de qualidade, pois sabe-se lá por quanto tempo os podemos manter.
As profundezas da mina ajudaram-no a valorizar os sentimentos, a dar-lhes voz, a expressá-los, sem receio de se expôr. O maior medo de Lucho era morrer sem antes reunir-se com a família e dizer-lhes que sempre os amou. Essa iniciativa iria ser posta em prática assim que avistasse Consuelo e sus niños. Mal podia esperar. Agora que estava quase a chegar não podia perder mais tempo. Já perdera tempo demais.

Atitude

Cultivar uma Atitude é razão para nos afirmarmos enquanto pessoas com qualidades únicas. Não devemos impô-la mas adoptá-la como se de um carimbo pessoal se tratasse e ser-lhe fiel em todas as circunstâncias em que nos vejamos envolvidos. Ter Atitude implica ter uma resposta perante aquilo que vai acontecendo nas nossas Vidas e as respostas que nós damos denunciam o tipo de pessoas que somos. A Atitude atribui-nos significado e confere significado a tudo o que nos envolve.
Pessoas com Atitude envolvem-se, não ficam indiferentes, entregam-se a causas, afirmam suas posições, defendem seus ideais, comprometem-se, são participativas, são magnetizadoras, causam admiração, sensibilizam plateias pequenas e grandes, distribuem Amor, afecto, carinho, conforto, amparo, dedicam-se ao que realmente é importante fomentar, são tolerantes sem ser compassivas, reconhecem as suas falhas, aceitam as falhas dos outros, não buscam a perfeição nem a aceitação.
A Atitude não nasce connosco nem é passível de imitação. Requer coragem da nossa parte para assumirmos a responsabilidade por aquilo que fazemos e, principalmente, por aquilo que deixamos de fazer. Aliás quem afirma sua Atitude, não desperdiça a oportunidade de fazer aquilo que tem vontade de fazer e, por isso, também não se arrepende do que não fez porque nada do que considera realmente importante fica por realizar. Apesar dos seus receios, das suas inseguranças, das suas falhas, das suas limitações, acredita que é possível contrariar esses handicaps e resistir a todas as más sensações que o processo de enfrentar nossos próprios medos gera. A sua entrega é tão grande e a vontade ainda maior, que tudo o que possa ser obstáculo ganha uma dimensão reduzida, perdendo toda a capacidade de atemorizar e fazê-lo recuar e desistir do que para ele  faz todo sentido comprometer-se.  A sua ansiedade é canalizada para a prossecussão dos seus objectivos e nunca desaproveitada na exposição dos seus pânicos interiores, que não importa estimular.
A Atitude representa a Magnitude do Nosso Ser, ou seja, o poder do seu alcance e os efeitos que provoca.
     

Inspiração procura-se

Qualquer artista teme perder um dia a sua criatividade e jamais conseguir criar arte. O Pânico é real e atormenta a classe artística que, por vezes, se vê forçada a abrandar o ritmo das suas criações para não vir a vulgarizar sua arte, tornando-a repetitivamente enfadonha.
Lucien estava a ser vítima desse desânimo. Algo que ele nunca sentiu nem experimentou. Estava apavorado. Precisava criar para lucrar, mas o vazio interior impedia-o de esgrimir os seus pincéis, animar a tela branca com diferentes combinações de cores e voltar a surpreender seus admiradores.
Despiu a bata salpicada de multitons, bateu a porta do atelier e saiu de  cachimbo na mão. Aquele lugar, outrora cúmplice de alegrias,  estava a atrofiar-lhe a liberdade inspirativa. Sair parecia ser a solução mais imediata, para fugir da pressão criativa a que estava sujeito, cada vez que seu marchand o intimava a produzir para mais um ciclo de exposições.
Estranhou a chegada da noite fria quando saiu do seu bunker, mas mesmo assim continuou a caminhar em direcção à ponte sobre o rio Tamisa e suportar o ar gélido na cara, exposta ao vento. Os raros transeuntes com quem se cruzou, caminhavam apressados, indiferentes a tudo o resto, tolhidos pelo frio, tão British. Até ali nada o apelava, nem o impedia de prosseguir seu caminho, agarrado ao seu cachimbo calabash estilo Sherlock Holmes. A noite adensava-se cada vez mais.  Lucien continuava perdido nas ruas de Londres, cenários perfeitos de crimes policiais. Sem perceber, alguém o perseguia persistentemente desde a hora que abandonou seu abrigo criativo. Obcecado pelo seu problema ainda por resolver, Lucien continua arredado do mundo real. Nisto é interrompido por uma voz feminina, atrás de si, que o faz estacar de medo, conquistando a sua máxima atenção. Vira-se indefeso, para encarar o imprevisto e é com espanto que percebe que afinal a figura ameaçadora  é uma Mulher de ar miserável,  possuída pelo alcóol, sem abrigo, esfomeada, estigmatizada pela sociedade, que continua a rejeitar  suas tentativas de inserção. Sem querer, aquela mulher andrajosamente vestida, sem suavidade no rosto, estampado de tristeza, pelo que deixou escapar com a rendição à bebida, desperta interesse em Lucien que, sem hesitar, lhe oferece uma refeição quente e um quarto onde dormir nessa noite insuportavelmente gélida. Sem melhor opção, ela aceita a sua generosidade mas sem se comover. Tudo tem seu preço. Nunca ninguém lhe ofereceu nada sem exigir algo em troca. Todos aqueles que lhe estenderam a mão levaram pedaços de si, que jamais foram repostos e  é sem esperança de os reaver ,  que mendiga pão e atenção.
Lucien tentou provocar conversa mas em vão. As respostas eram curtas e nada adiantavam sobre sua identidade.  A  fome e a desconfiança impediam-na de desenvolver um diálogo contínuo .
Depressa chegaram ao abrigo de Lucien, que estava convenientemente quente e acolhedor. Este apressou-se a aquecer um prato de sopa e a partir a carcaça de pão, para acomodar o steak. Menú sofregamente devorado por aquela Mulher de origem desconhecida.
Sem privacidade, a Mulher é observada por Lucien, que estuda seus traços, sua silhueta feminina, seu modelo de Mulher, a ser retratado na tela em branco, largada a um canto do estúdio. Os olhares grudentos de Lucien assustam-na  mas algo a instiga a ficar.
Lucien percebendo sua inquietação, decide ser sincero e contar o que ele efectivamente quer dela. A Mulher ainda sem nome, escuta a sua proposta, que consiste em posar como seu modelo artístico. Algo que ela nem sabia como personificar. Ela era a antítese do Modelo.
Curiosamente, foi essa antítese que despertou interesse em Lucien. O objectivo era chocar, ferir susceptibilidades, exagerar, dramatizar.
A Mulher aceitou e até revelou o seu nome.  Margaret tinha agora a oportunidade de se inserir com a benção de um  artista conceituado.  Iria ser a sua inspiração, a sua musa, a sua única escolha para figurar nas suas criações. Uma importância que ela nunca teve, nem se soube dar.
Despudoradamente, despiu suas vestes remendadas e dispôs-se na cama de ferro, completamente descoberta e em posição de descanso.  Estava instalado o cenário ideal para Lucien dar continuidade à sua sensibilidade artística.
Propositadamente, as poses não foram refinadas para não camuflar a realidade daquela Mulher marcada pela Dor.
Renasce o artista e a Mulher que lhe serve de inspiração.  

domingo, 23 de janeiro de 2011

Sonhar é preciso

Sonhar é o que nos mantém à tona e não nos deixa esmorecer, à medida que vamos sendo colocados à prova com situações de privação. A capacidade de alimentar o sonho é algo que não habita em todos nós, mas que pode ser trabalhada e explorada no sentido de nos convencermos, que mesmo em situações de adversidade, podemos conceber sonhar e acreditar em melhores dias, que mudem o curso de negatividade.
O dispositivo que gera o sonho é o nosso fortalecimento interior, que se engrandece quanto mais alimento lhe dermos e podemos buscá-lo de variadíssimas formas, em múltiplos contextos do nosso quotidiano mas para isso, precisamos recorrer à nossa sensibilidade para identificar os modelos de felicidade que queremos atrair para as nossas Vidas.
Um compromisso que devemos estabelecer, consiste em dourar nossos dias com algo positivo, seja ele qual for, desde que desperte boas sensações e ânimo para continuar a sonhar com aquilo que queremos construir no nosso futuro. Nossas acções no presente devem ter um sentido e considerarem o dia de amanhã. 
Uma filosofia de Vida é o que se tenta promover, para ultrapassar os castigos a que vamos sendo sujeitos numa sociedade contaminada pelo mal. Sem essa filosofia não ganhamos imunidade à sua contaminação e seremos engolidos numa espiral de desistência por aquilo que só nós poderemos controlar. Nossa Vida é nossa responsabilidade e o seu percurso é consequência do que promovemos no presente.
Quem desistiu de inverter o rumo da sua existência, não pode reclamar do que vier a acontecer. A inacção mata todas as oportunidades de transformar o sonho em realidade.
A forma como encaramos nosso destino é o que nos diferencia. Há aqueles que cumprem mais um dia de obrigações e se queixam da carga que carregam e há os que se congratulam com a chegada de um novo dia e com ele uma nova oportunidade de se aproximarem ainda mais do seu modelo de Felicidade.       

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Cidadãos do Mundo

É animador saber que fazemos parte do Mundo e não estamos apenas confinados à nossa terra natal. Esta possibilidade de integração global cria em nós a crença de que podemos ser felizes em qualquer parte do globo. A abertura das fronteiras criou múltiplas vantagens e esta é para mim, indiscutivelmente, a fonte de todas as oportunidades. Viajar sem grandes restrições, estudar no exterior, patrocinados pelos programas Erasmus e Sócrates, o acesso a canais cabo, através dos quais nos chegam notícias do Mundo, as redes sociais que estreitam laços com os amigos, que ganhamos enquanto estudantes estrangeiros e que fomos obrigados a abandonar, para regressar às nossas origens, as redes sociais num contexto profissional que nos actualizam e nos dão a conhecer a realidade dos mercados internacionais, a consulta da imprensa internacional, o turismo, a discussão aberta a todos os países participantes, nas várias cimeiras governamentais e não governamentais que decorrem no mundo inteiro, são alguns dos marcos vísiveis do nosso crescimento.
Nossos desejos também acompanharam a unificação mundial e hoje reflectem isso mesmo ao concebermos criar raízes noutro país, com outros costumes, outro idioma, outro clima, outra cultura, outro grau de conhecimento, outra estrutura. Há uns anos atrás esta mudança radical constituía uma díficil decisão que recaía essencialmente na melhoria das condições de vida. Actualmente, essa decisão está mais facilitada e consciente, isto porque não deparamos com tantos entraves e a aceitação desta miscinização de culturas é bem mais tranquila. A diferença está que antes não tinhamos alternativa e agora, apesar de termos alternativa, optamos sair do conformismo que a proximidade com as nossas raízes nos cria.  
    

Tolerância Zero

Só de proferir em voz alta "Tolerância Zero", fico com a sensação de me ter liberto de algum mau estar. Somos castigados de tantas e persistentes maneiras no nosso dia a dia, que só apetece exibir várias cartadas para evitar explodir com a nossa revolta e amedrontar a assistência. Esse naipe de cartas deveria considerar vários contextos, onde a nossa tolerância é zero e servir de excelentes substitutos para o nosso destempero verbal, livrando-nos de todo o mal.
Todos os dias somos desafiados e testados, exigindo de nós doses exponenciais de paciência, espírito elevado, resistência e muito distanciamento pessoal.
Quando a tolerância é zero, porque não conseguimos mais suportar o comportamento repetititvo daqueles com quem esbarramos na Vida e com quem compartilhamos o mesmo espaço físico e dedicamos sem prazer grande parte do nosso tempo, um bom e eficaz recurso seria dispôr desse baralho de opções que nos desresponsabiliza de agir consoante a ocasião.
Sem querer, somos entregues a criatuas sem inocência, sem conteúdo, sem sensibilidade, sem educação, sem noção do que provocam, sem noção do que representam, sem berço, sem limites, impiedosas com o mundo, vingativas e que sem sucesso, cobiçam aquilo que é dos outros e não podem ter porque ainda lhes falta o principal, SER.
A essas criaturas eu exibo o cartão "Not Disturb" ou então, "Estou na Porta ao lado".

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Trânsito

Um dos grandes causadores de stress é o trânsito. Mesmo quando não temos horários a cumprir, desesperamos com a calma do carro à nossa frente, que sabe se lá porque razão decidiu colar o ponteiro nos 40km e se se desviar desse limite, é bem capaz de achar que está a pecar e vir a ser alvo de uma pena impiedosa. O terço e demais amuletos protectores da sua segurança rodoviária, traçam o seu perfil de discípulo dos movimentos lentos, cronometrados, indiferentes à pressa dos seus colegas de estrada, ultra concentrado, com as duas mão grudadas no volante, corpo rígido, olhar compenetrado, ao som da rádio Renascença Emissora Católica Portuguesa. São eles que ditam o compasso da procissão, que desesperadamente segue na sua cola e sabem bem aproveitar-se disso, escolhendo trajectos com raras oportunidades de preparar a fuga. Este género desafia a resistência de qualquer um.
Há também os audazes do asfalto que se aventuram sem noção do perigo, forçando a passagem e comprometendo a sua segurança e a dos outros. Para eles o automóvel é um prolongamento daquilo que gostariam de ser. Sentem-se poderosos e viris quando dominam a máquina com toda a sua pujança física, ganhando velocidade à medida que cruzam obstáculos, como se estivessem a participar nalgum ranking desportivo de renome. Artilham suas glórias com todo o tipo de acessórios que melhorem a sua performance e os façam brilhar à sua rodagem. Quem com eles se cruza na estrada fica com a sensação que estão em missão urgente ou então vieram abrir caminho para a passagem da visita presidencial. Até podia ser verdade, não fossem tantos os casos de apressadinhos a querer ganhar terreno e exibir seus dotes questionáveis de hábeis condutores. Julgam-se detentores de bons e rápidos reflexos que de nada servem quando o imprevisto surge e com ele a tragédia, que mancha de sangue o seu palco de diversões.



segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Felicidade



Um tema muito em voga nos livros de auto-ajuda que nos orientam para a Felicidade.
Mas afinal o que é a Felicidade?
Todos temos uma opinião sobre o conceito de Felicidade, baseada em sensações, em pressupostos, em imagens que fomos guardando e catalogando no nosso inconsciente, em exemplos apreendidos em diferentes contextos, nas nossas prioridades, nos nossos desejos, na nossa maneira de estar na Vida e no contacto com os outros.
O nosso grau de satisfação também determina a nossa capacidade de sermos felizes. Pessoas permanentemente insatisfeitas tendem a ser irremediavelmente infelizes. O grau de satisfação está intimamente ligado ao grau de exigência. Quanto mais exigentes formos mais insatisfeitos nos tornamos. 
Não podemos ser demasiado exigentes connosco nem com os outros, para não sofrermos com a desilusão de não alcançar níveis elevados de satisfação. Vamos esbarrar sempre em situações de não correspondência aos nossos padrões, estranhar outras formas de Vida, lidar com opiniões desfavoráveis, enfrentar os nossos e os traumas dos outros, duvidar de nós, duvidar dos outros, remar numa maré diferente daquela que os outros traçaram para nós e convencermo-nos que a Nossa Missão de Felicidade é algo que só nós saberemos determinar. Não podemos confiar a Nossa Felicidade a ninguém, nem mesmo às pessoas que mexem com nosso coração.
A nossa percepção de tudo o que vai aparecendo, denuncia a nossa propensão para a Felicidade. Essa percepção foi-se formatando à medida que fomos crescendo, ganhando autonomia para pensar e agir, sendo ela o principal instigador das nossas atitudes em prol da nossa Felicidade. Os que são gratos pelo que têm e não desdenham a sorte alheia, acreditando que só atraem aquilo que captam garantem a sua felicidade dia a dia.
A perseguição da Felicidade é uma aprendizagem para toda a Vida, que implica a consciência de nós mesmos, de quem somos e do que queremos alcançar enquanto a luz não se apagar e ditar o fim da nossa missão terrena.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Suspiros


Suspiros profundos numa Mulher podem ser um mau sintoma. Eu sou Mulher e melhor do que ninguém sei identificá-los e interpretá-los. A nossa condição de seres sensoriais e perseguidos reage com sensibilidade e manifesta-se com frequentes inspirações, aliviadas com um Ai Ai sonoro, ou a solicitar atenção, ou a exasperar por algo, ou a chamar a saudade, ou a querer desabafar.
Bem se diz que somos o género que melhor explora a Comunicação. Até a não verbal recebe da nossa parte especial atenção e como. Nosso olhar muda quando algo não nos convém, nossa respiração acelera anunciando alteração súbita de humor, remoemos algo imperceptível, esbarramos em todos os objectos e derrubamo-los como se fossem alvos a abater, aceleramos o ritmo, amuamos, ganhamos energias e aplicamo-las em tarefas com alguma exigência física e se algo ou alguém surgir no caminho, é melhor não se oferecer para ajudar e assim promover o diálogo, até ali adiado com vários suspiros, que para alguém mais experiente na matéria são claros alertas para desandar por longas e demoradas horas.
Nós somos as melhores transformistas e despertadoras de surpresas. Temos a capacidade de assumir várias facetas e surpreender com todas elas.
Gladiamo-nos por miudezas como se fossem peças fundamentais para formar o puzzle da Nossa Vida. Aprofundamos demais, complicamos demais, sofremos por antecipação, não relaxamos, comparamos demais, exigimos demais, esperamos demais, cobramos demais, amuamos demais, remoemos demais, Amamos demais e, por isso também Suspiramos demais.
Ai Ai.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Renovação

Laura vivia amarrada num emprego sem evolução, que se prolongava de segunda a sexta ininterruptamente. O despertador já estava programado para assinalar o começo do dia às oito da manhã e Laura, obedientemente, sacudia o sono e saltava da cama com grande agilidade e sem tempo a perder. Trinta minutos bastavam para concluir o refrescamento da sua imagem e sair disparada para o emprego. Muitas vezes, a pressa matava a possibilidade de se despedir de Samuel com o beijo a que se tinham habituado, desde que selaram seu compromisso de partilharem todos os momentos das suas Vidas. Samuel ressentia-se com o esquecimento de Laura e ela, culpava-se por mais uma vez despreviligiar aquilo que faz sentido na sua Vida. Apesar destes incómodos emocionais serem uma presença recorrente, nem um nem outro desabafavam o quanto isso os sensibilizava. Quando se reencontravam no final do dia, completamente desgastados com as várias rotinas impostas, já só sobrava tempo para as questões caseiras e remoer o mau estar acumulado. Assim era a sua convivência semanal, que só ganhava algum ânimo no final de semana, mas pouco. Nem Laura nem Samuel questionavam a ausência de dedicação de que careciam. Ambos sentiam que algo de errado se apoderara das suas Vidas mas insistiam em abafar essa sensação e prosseguir, como se isso fosse de menor importância.
No intervalo para café, Laura queixava-se da sua Vida à confidente e Amiga Dulce, que coleccionava dois divórcios litigiosos tão mal vistos pela sua Mãe, defensora do Casamento resistente para sempre. De forma egoísta, Dulce criava em Laura dúvidas se o seu casamento teria salvação e não estaria agastado demais para esperar uma reviravolta. A sua intenção era ganhar mais uma aliada e companheira na solidão.
Por sua vez, Samuel nas suas idas semanais aos jogos de futebol organizado com os amigos, aproveitava para libertar-se da vontade eminente de pecar com a colega, que propositadamente provocava encontros imediatos no edifício da Holding onde ambos trabalhavam. Eleita a Mulher Canhão pelos seus colegas de trabalho e tema principal das conversas machistas no coffee break, para desassossego de Samuel.
De volta a casa, Laura e Samuel suspiravam por melhorias e resignados fechavam-se nos seus mundos interiores. Ele refugiava-se no acompanhamento atento das jornadas futebolísticas e ela, nas séries da Fox. O diálogo era cada vez mais escasso e apenas interrompia o silêncio instalado, para reprogramar as rotinas diárias.
Laura sonhava com vários cenários de romance, onde ela era a Rainha de toda a atenção de Samuel e cobiça dos homens que os expiavam de longe, para grande revolta de suas companheiras enciumadas.
Samuel queria uma Mulher disponível para satisfazer as suas fantasias, para o acompanhar e fazê-lo sentir-se invejado e um Homem poderoso a seu lado.
Algo mágico e magnetizador salvaria este casal tão afundado nas suas próprias mágoas.
Invocar Deus ou outras Entidades Divinas seria em vão. Deus só acode quem tem vontade de mudar o seu estado. Recorrer à memória do tempo em que eram felizes, potencia a colagem dessa imagem ao presente que queremos retocar. Flashes daquilo que está congelado no passado e que nos fez bem, devem ser repassados na nossa mente para que aos poucos nos sintamos convencidos de que é possível reverter a situação actual.
Apesar dos fracos conselhos de Dulce, Laura conseguiu relembrar desse passado Bom com Samuel. Do seu sorriso, da sua cumplicidade, da sua proximidade, do seu sentido de humor, da sua meiguice, do seu apoio, da sua dependência de Laura. Afinal, ambos estavam enganados ao pensar que já não careciam mais um do outro. Laura estava convencida que Samuel já não dependia dela para se sentir Feliz e Samuel remoía o mesmo.
O retrocesso mental no tempo motivou Laura a tomar a iniciativa de partir e deixar uma passagem paga para Samuel no Mural dos Recados e, a seu lado uma mensagem convocando-o a encontrar-se com ela, com a promessa de não se vir a arrepender. A provocação entusiasmou Samuel, que sem hesitar correu para o aeroporto apostado em refazer a sua Vida com a Mulher que o cativou à dez anos atrás naquele bar jazz em Queen's.

FALO DE BONDADE!

Temos memórias diferentes. As tuas não são as minhas, nem as minhas são as tuas. Há algumas que gostaria de apagar e há outras que gostaria ...